quarta-feira, 19 de maio de 2010

Conto

In-dedução


Estacaram.
Foi desse jeito que as sombras que serelepeavam na parede ficaram quando a mulher entrou. Atônitas, viram a mulher sentar-se à mesa , ereta. Os olhos parados, cheios de vazios. Abertos, pareciam que enxergavam o que contemplara há pouco. O rosto sujo com algo que as sombras não conseguiram identificar.
Com as duas mãos sobre a mesa, punhos fechados, a mulher chorava. A mão esquerda segurava o ar com força; na direita, uma faca serrilhada. Ela parecia não acreditar no que fizera.
Os olhos, de repente, criaram vida e olharam para a mão da faca. A raiva, o nojo e o desespero surgiram como trovão. As sombras tiveram a certeza, então, de que o horror estava presente, ali, na mão da mulher.
As sombras se aproximaram e, com espanto, viram o sangue. No rosto, como riscos. Na mão, na faca. Abundante, como uma tatuagem vermelha e afiada.
Ouviram a mulher murmurar, a princípio: “- Eu não queria fazer. Eu disse que eu não queria. Jamais tinha feito isso. Mas ele me obrigou. Foi a minha primeira vez.”
Ela olhava para a faca suja de sangue que escorria pela sua mão, e pingava sobre a toalha branca. Como sonâmbula, abriu mais os olhos parados, e a voz cortante em tom cada vez mais alto, passava um desespero feito lâmina:
_ Eu não queria. Nunca pensei que um dia ia fazer isso. Ele disse que eu tinha que fazer para perder o medo. Não assim! Ele devia ter me ajudado! Mas não, largou tudo em minhas mãos e saiu. Eu o odeio! Vou fazer para ele o que ele me obrigou a fazer. AH! Se vou!
Trêmulas e confusas, as sombras não saíram o lugar. Estáticas, olhavam para a mulher sem acreditar. A porta abriu e elas, apavoradas, correram a se esconder no canto da sala, mas curiosas.
Espiavam, espremidas, quando o homem entrou e foi direto até a mulher.
Ele se abaixara e falava com a mulher, calmo, como se fosse acostumado a fazer o que ela fizera pela primeira vez.. Ele tirou a faca da mão ensanguentada e beijou-lhe o rosto, ainda riscado de sangue. Ela começou a chorar, abraçou-se a ele. As sombras ainda conseguiram ouvir a mulher, enquanto os dois saíam:
_ Nunca mais faça isso comigo. Na próxima vez que você quiser comer peixe, por favor, traga ele já pronto. Nunca mais me faça limpar um peixe na vida.
Aliviadas, elas recomeçaram seus saracoteios na parede quando a porta se fechou.

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